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Audaz, ardente, alegre, abusada, apaixonada...
...afoita, amiga, avó, bacana, bonita, balançada, buliçosa, briguenta, brejeira, bailarina, morena, malandra, marota, mutante, mãe, delicada, dedicada, dengosa, doce, danada, feliz, falada, famosa, falante, faceira, fã, feminina, fadada, filha, temperada, tenaz, teimosa, talentosa, sapeca, safada, sambista, sofrida, capaz, colocada, calejada, cabocla, caprichosa, caprichada e carioca.
Todas estas palavras e muitas mais serviriam para entrar numa descrição da Betty. Por motivos que desconheço, mas desconfio, fui intimado a escrever sobre ela. E o que primeiro me veio à cabeça foram estas palavras soltas, tão soltas como foi e é o viver desta atriz. A sua vida não foi por acaso, ela quis, brigou, estudou, lutou. Se não fosse filha de militar, sempre viajando por este Brasil na infância, talvez tivesse começado mais cedo na profissão. Ainda menor de idade já estava na TV, como auxiliar de apresentador e bailarina. E emancipada, dançava num dos mais lindos shows montados no Copacabana Palace. Quando Copacabana, valia a pena. A conheci na praia de Ipanema. No Castelinho. De biquini, o nariz já em pé, dizia que iria ser atriz. Não demorou muito e lá estava ela, seduzindo Jorge Doria, numa primeira versão do “Beijo no Asfalto”. E já era num show do Carlos Machado (o Rei da Noite) a “Chica da Silva”, personagem título. Cantava, dançava e junto a Lennie Dale começava a fazer todos “balançar” no ritmo “Bossa Nova”. Inquieta, onde você olhasse no Rio, lá estava ela.
A vida de um artista só começa a contar quando o grande público sabe dele. E isto só veio a acontecer, quando a televisão cruzou o país. Ali todos começaram conhecê-la. Mas, muitos caminhos e aprendizados já tinham sido trilhados. Teatro Revista e o teatro Oficina, cantando, dançando e fazendo humor em TV, comédias no cinema, era uma das “Sete Faces de um Cafajeste” chamado Jece Valadão. Andava junto com outras “meninas” que eram o desacerto da moçada. Ela, Leila Diniz e Marieta Severo. Pois foi Leila, que veio lembrar o nome dela, para uma novela que eu estava começando. Betty tinha acabado de dar a luz pela primeira vez, a Alexandra Marzo, sua com Cláudio Marzo. “Acorrentados” seria sua primeira novela, gênero que começava já a dominar o público e em pouco tempo, ela era uma das estrelas. Dali o convite para estrelar um filme com o óbvio título de “A Estrela Sobe”. Ela que já estava subindo, então o que estava lá em cima, furou o teto. Dirigi a Betty em TV, várias vezes, e sempre conto e repito aqui, que o acerto da primeira versão de “Pecado Capital” está muito ligado a ela. Pena que ninguém viu a sua “Viúva Porcina”, que proibida com 36 capítulos gravados, nós já tínhamos uma certeza do sucesso, quando veio a proibição. Alguns atores têm este dom de apesar de “viverem os personagens” ter sua persona presente. É o caso dela. A voz quente e swingada. Olhar direto. Corpo firme. Mulheres fortes. De “Bye, Bye Brasil” à “Romance da Empregada” essa mulher está lá. E podem acreditar, lá também está a Betty Faria. Mesmo na sofrida professora de “Anjos do Arrabalde”, ela dá dignidade ao perdedor. Mas, a qualidade que mais admiro é o da brasilidade. Poucos atores e menos atrizes são tão brasileiras na tela ou telinha. É uma marca. Ser assim, é que a faz mais querida do nosso público. Ser assim é que fez Jorge Amado, enquanto escrevia em Londres “Tieta do Agreste”, dizer a ela: -“Este livro que estou fazendo é para você”. E Zélia concordar: -“É, a Betty é o jeito de Tieta”. Sou testemunha disto. E a lutadora Betty, depois comprou os direitos (por preço de pai pra filha) e o levou para a televisão. O “Tieta” da TV é praticamente uma co-produção dela. O Brasil está no corpo e sangue de Betty. Quarta geração de autênticos brasileiros. Pernambucanos, goianos, índios, caboclos, portugueses. Esta mistura de raça, está lá. Em cada poro, em cada balanço do seu corpo. Corpo e olhar que esquentou a imaginação dos espectadores do Iapoque ao Chuí. O nome dela, ela não gosta que digam, mas lá no certificado de nascimento é: “Maria Elizabeth da Silva Faria”, olhe a mistura do Elizabeth com o Maria e Silva, e me digam se não é um autêntico Brasil. Os anos não esmoreceram a “menina” que conheci lá em Ipanema. Muitos prêmios e aplausos depois, aqui estou eu, escrevendo sobre ela, para esta merecida homenagem. Adora o cinema, acabou de produzir e estrelar mais um. “Bens Confiscados” de Carlos Reichenbach.
E, agora, eu me levanto da cadeira e me junto a todos neste aplauso e, junto, grito:
Bravo por acreditar que não existem barreiras, quando se ama e se acredita numa missão!
Bravo por representar tão bem a mulher do seu País!
Bravo Betty Faria, atriz, mãe, avó, brasileira, sonhadora, lutadora, vencedora!
Daniel Filho
"Quando eu comecei a viajar pelo Brasil, a primeira atriz que me veio a cabeça para fazer o papel de Salomé foi a Betty Faria.
Ela tem uma chama, um fogo, uma garra no que faz. É muito bonito. Sobretudo quando se identifica com algum personagem."
Cacá Diegues
Diretor
"Com alguns colegas meus eu me sinto a vontade para ser trapezista. Em particular com a Betty. Eu sei que posso me jogar e que ela vai me segurar. E sei que ela tem certeza, ela sabe que se ela se jogar, der um salto triplo, eu vou estar segurando lá na frente. Acho que isso é essencial para um trabalho de duplas."
José Wilker
Ator
"Quando eu digo guerreira em relação a Betty, eu digo guerreira da vida. Ela me passa essa idéia da mulher moderna. Essa mulher que alterou o próprio comportamento da mulher na sociedade.
Isso, na filmagem de O Bom Burguês, era bastante nítido porque a gente vivia um momento muito difícil. Na época das filmagens, acontecia uma série de atendados terroristas. As pessoas falavam que mais cedo ou mais tarde iriam acabar jogando uma bomba nas filmagens.
A Betty foi o tempo todo muito serena, solidária, uma pessoa que não enfatizou nem dramatizou nada disso. Se portou com toda a natauralidade."
Oswaldo Caldeira
Diretor
"A Betty não gosta de atuar, ela gosta de virar o personagem. A Betty tem esse lado da mulher do povo, uma mulher bonita, popular. Ela não faz o personagem pura e simplesmente como ele foi escrito. Ela transforma o personagem em si própria."
Bruno Barreto
Diretor
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