NAM-MYOHÕ-RENGUE KYO
 
Uma pessoa verdadeiramente sábia não será arrebatada por nenhum dos oito ventos: Prosperidade, Declínio, Desgraça, Honra, Elogio, Censura, Sofrimento e Prazer. Ela não se inflama com a prosperidade nem se desespera com o declínio.

Os Deuses Celestes seguramente protegerão aquele que não se curva diante dos oito ventos.

Gosho Budista

Uma mini-biografia de Rogério Menezes

Garota de Copacabana, menina do Rio

No particular: garota de Copacabana (mais exatamente do Posto 4), onde nasceu em 8 de maio de 1941. No geral: menina do Rio, que fez jus ao epíteto e provocou arrepios ontem, hoje e sempre. Filha de dona-de-casa e de militar, não se intimidou com a alta patente paterna, e foi levada da breca. Melhor: levadíssima. Não levava nem trazia desaforo para casa. Papai & mamãe comeram o pão que a danadinha amassou. Precoce no desejo de cair na vida de artista, aos quatro anos de idade cismou: quis trocar o acolhedor, mas chato, lar-doce-lar por mambembe circo que, à toa na vida, viu passar e quis ir atrás.
Papai & mamãe, claro, não deixaram. Mas Elisabeth Maria Silva de Faria não se deixou abater. No ano seguinte, decidiu: se não seria artista de circo, seria bailarina: passou a estudar balé clássico. Tão obcecadamente e tão disciplinadamente, que nem as viagens que o pai militar era obrigado a fazer Brasil afora a fizeram mudar de idéia. Tanto que, quando voltou novamente a se fixar nas areias de Copacabana, calçou rapidinho as sapatilhas outra vez e pernas (e pés) pra que te quero.

Entre Marlon Brando e Oscarito

A dança a fascinava tanto que as aulas, inicialmente no Colégio Pedro II (onde cursou o Ginasial) e no Colégio Mello e Souza (onde estudou o Clássico) não eram exatamente os melhores momentos dos já então agitados dias de Maria Elizabeth Silva de Faria. Além do balé, o cinema se tornou o outro objeto de desejo daquela menina do Rio. Era o auge do rock'n'roll que, a bordo de motocicletas envenenadas da então alcunhada juventude transviada, incendiava os cinemas de todo o mundo. Os do Rio de Janeiro inclusive. Necessário ressaltar, incendiava também a libido em flor dessa garota de Copacabana. Dando nome aos culpados: Marlon Brando e James Dean atestaram-lhe para os devidos fins: sexo era, e é, o mais sublime dos pecados.

Ah, sim: Elizabeth Maria também assistia a todos os filmes-chanchadas da Atlântida. Não perdia um. Oscarito e Ankito podiam não ter o sex-appeal de Brando e Dean, mas ajudaram-na a perceber (e a não esquecer jamais): representar pode ser um prazer inenarrável (tanto para quem representa, quanto para quem assiste à representação). Provas cabais desse aprendizado, do quanto o histrionismo desses mestres lhe foi fundamental: as memoráveis interpretações em A Estrela Sobe (de Bruno Barreto), Romance de Empregada (idem), Bye Bye Brasil (de Cacá Diegues) e Anjos de Arrabalde (de Carlos Reichembach).

Apesar de papai & mamãe, nasce uma estrela

De volta ao passado: papai & mamãe continuavam fazendo cara feira para as tendências artísticas da filhota. Mas, enquanto isso, Maria Elizabeth mergulhava cada vez mais fundo no mundo da dança. Estimulada por mestres como Mme. Marie Makarowa, Pierre Klimov, Sandra Dieckens, Eugenia Feodorowa, Nina Verchinina e Jo Jo Smith. Como se não bastasse, encontrou o mestre dos mestres, o homem que a fez perceber que vida e dança são faces da mesma moeda: ninguém menos que Lennie Dale. Aquele americano-brasileiro que, anos depois, criaria o grupo Dzi Croquettes e que, presumo, certamente nunca acreditou em um Deus que não soubesse dançar. Por muitos e muitos anos uma e outro foram unha e carne, amigos para sempre. Recém-saída da adolescência, começou a fazer testes para corpos de baile dos shows da TV Excelsior. Na primeira vez que se apresentou diante do experiente Juan Carlos Berardi (um dos coreógrafos mais notáveis dos primeiros musicais da tevê brasileira) vestia um bem-comportado tutu, aquele saiote típico das bailarinas clássicas. Berardi não perdoou, gargalhou. Atingida por debochadas gargalhadas, trocou o vetusto tutu por cavadíssimo maiô de vedete. Voltou trocadíssima, vedetíssima. Fez bem. Nascia uma estrela. Nascia Betty Faria.

Deus escreve certo por linhas tortas

Vedete, mas vedete adolescente, ainda tinha o pai militar nos calcanhares. Mas não desistiu. Aos 19 anos, em 1960, entre cinqüenta outras bailarinas, foi escolhida pela coreógrafa americana Sonia Shaw para fazer parte do corpo de baile do musical Skindô. O que obrigou (Deus seja louvado!) o pai militar a, enfim, capitular. Com menos de 21 anos, Betty Faria precisou (e teve) da autorização paterna para atuar no espetáculo que estreou no Golden Room do Copacabana Palace e depois excursionou por São Paulo, Buenos Aires e Montevidéu. Agradou tanto que, no espetáculo seguinte Tio Samba, de 1961, conquistou o privilégio de fazer alguns números-solo.

Aquele Deus-que-sabia-dançar-no-qual-Lennie-Dale-acreditava também parecia escrever certo por linhas tortas. Ao fazer com que uma espevitada bailarina sofresse sérias lesões no joelho, o que a obrigou a sair do espetáculo Tio Samba no meio da temporada, abriu nova trilha na vida de Betty Faria: enquanto se recuperava das seqüelas decorrentes desse incidente de percurso, fez diversos cursos de arte dramática. O que, como sabemos, ser-lhe-ia extremamente útil algum tempo depois.

Os bons companheiros da estrela que nasce

Mas, enquanto a atriz não nascia, a bailarina sobreviveu ao incidente de percurso que a contundiu em cena aberta. Graças a Carlos Machado, talvez o mais importante diretor de musicais que o Brasil já teve. Ele a viu num ensaio para um programa de tevê e, bamba na arte de catar talentos, a convidou para estrelar, em grande estilo, o espetáculo Chica da Silva 63. Ao lado de ninguém menos do que Grande Otelo - aquele mesmo que ela assistia, deslumbrada, nas chanchadas exibidas pelos cinemas de Copacabana.

Depois de Carlos Machado, todos queriam botar Betty Faria para dançar. Miéle & Bôscoli, uma das mais produtivas duplas de diretores de musicais do país, que não eram bobos nem nada, não perderam tempo: convidaram-na para cantar e requebrar em muitos shows. Um deles entrou para a história da televisão brasileira: o encontro de um notável cantor, Dick Farney, e de uma notável bailarina em Dick & Betty 17, show que marcou a inauguração da TV Globo, em 1965.Como se vê, caro leitor, a moça estava sempre muito bem-acompanhada.

O cinema, o teatro e o amor - ai, o amor

Mais ou menos nessa época, o cinema entra em cena. O que atestaria para os devidos fins que aquelas noções de teatro que Betty Faria aprendera na época em que ficou no estaleiro por causa da lesão no joelho no espetáculo Tio Samba não foram em vão. Flávio Tambellini, pai, a convidou para atuar em O Beijo, baseado em texto de Nelson Rodrigues. Logo depois, o amigo Hugo Carvana a indicou para atuar em Amor e Desamor, dirigido por Gerson Tavares. O teatro, invejoso, imitou o cinema: o diretor Antonio Cabo chamou-a para estrelar As Inocentes do Leblon. Nascia uma atriz.

A bailarina continuava lá, mas a atriz pediu licença para entrar - e entrou. Então Betty Faria percebeu: tinha muito a aprender. Foi à luta. Procurou cursos de arte dramática e passou a participar do Grupo de Teatro Jovem, dirigido por Kleber Santos, onde estrelou João, Amor e Maria, de Hermínio Bello de Carvalho. Queria mais. Foi estudar teatro com Eugênio Kusnet, ninguém menos que um dos mais importantes mestres do teatro brasileiro em todos os tempos. Lá conheceu o diretor José Celso Martinez Correa, que a convidou para atuar em Os Pequenos Burgueses, de Maximo Gorki. Momento romântico: nessa montagem contracenou com Cláudio Marzo, com quem se casaria logo depois.

Vacas magérrimas, censura voraz, casamento acabado

Além de marido, Cláudio Marzo se tornou parceiro-sócio de Betty Faria. Eles e Antonio Pedro fundaram o Teatro Carioca de Arte, que encenou O Bravo Soldado Schweik, de Jaroslaw Hazek, e A Falsa Criada, de Pierre Marivaux. A idéia da companhia era encenar peças de qualidade e algo críticas em relação à situação em que o país vivia à época - auge da ditadura militar que chegara ao poder em 1 de abril de 1964. A proposta não era, reconheçamos, exatamente bem-vinda em tempos de draconiana censura e de escassez absoluta de liberdades democráticas.

A companhia, endividada, quase à míngua, fechou as portas. O que obrigou Cláudio Marzo, o único que já atuava em novelas na Globo, a arcar com a maior parte dos prejuízos. Betty Faria atuou então em dois filmes não exatamente espetaculares: A Lei do Cão e Sete Faces de um Cafajeste. Ambos de Jece Valadão. Ambos não exatamente obras primas. Mas a atriz precisava sobreviver, ora bolas. Logo depois, grávida de Alexandra, que nasceu em 26 de setembro de 1968, fez dublagens para filmes americanos exibidos na tevê.

Com o nascimento de Alexandra e a quebra da companhia, as despesas aumentaram espetacularmente. Então Betty Faria bateu às portas da TV Rio procurando emprego. Tendo Leila Diniz como fada-madrinha, e queridíssima amiga, conseguiu papel secundário em novela dirigida por Daniel Filho (com quem se casaria tempos depois): Os Acorrentados. A novela fracassou, a TV Rio abriu processo de falência e ameaçou pagar seus contratados com, em vez de dinheiro, eletrodomésticos. Como uma desgraça nunca vem sozinha, nessa época o casamento com Cláudio Marzo começou a fazer água. Deus é mais.

A rosa rebelde vira piranha no asfalto

Betty Faria, que nunca foi de dar ponto sem nó, não se intimidou: bateu às portas da TV Globo, e, enfim, mudou o curso da (sua) história. Implementou carreira televisiva que a levaria aos píncaros da glória e a transformaria numa das mais importantes atrizes da tevê, do cinema e do teatro brasileiros. Nessa emissora atuou seguidamente em A Última Valsa, A Rosa Rebelde, Véu de Noiva, A Próxima Atração, O Bofe, O Homem Que Deve Morrer, Cavalo de Aço.... - ufa!

Em 1970, Betty Faria, entre lacrimejante/emocionante novela e outra, resgatou o lado mais irreverente e moleque daquela garota de Copacabana e daquela menina do Rio de antanho: estrelou dois filmes supermarginais, supericonoclastas, daqueles que, com o perdão da expressão algo chula, são feitos-meio-nas-coxas: Monstros de Babalu, de Eliseu Visconti, e Piranhas no Asfalto, de Neville de Almeida. Claro, óbvio e evidente, sinal dos tempos, ambos foram proibidos pela Censura Federal e só liberados muitos anos depois.

Calabar, Roque Santeiro e o nascimento de João

A censura, aliás, parecia não gostar muito de Betty Faria (ponto para a atriz!), como veremos a seguir. Episódio 1, 1974: sob a direção de Fernando Peixoto, ensaiava o papel de Ana de Amsterdam, no musical Calabar, de Chico Buarque. Depois de dois meses de preparação, às vésperas da estréia no Rio de Janeiro, o espetáculo foi terminantemente proibido. Alegação: 'subversão'. Episódio 2, 1975: em texto de Dias Gomes, Roque Santeiro, interpretava a protagonista Viúva Porcina, sob a direção de Daniel Filho. Muitos capítulos gravados, dezenas de anúncios veiculados pela TV Globo, a novela foi proibida no dia da estréia. (Esta novela só seria exibida 11 anos depois, com elenco diferente; Betty Faria não aceitou mais fazer o papel e foi substituída por Regina Duarte).

O baixo astral causado pela censura de Calabar, no entanto, não duraria muito: além do nascimento de seu filho João, em 1° de abril de 1975, Betty Faria recebeu nesse período um convite que ajudaria a dar um upgrade na sua carreira de atriz. Depois de assisti-la nos ensaios de Calabar, o diretor Bruno Barreto, então um jovem de 20 anos, procurou-a com um script embaixo do braço, e disse: "Vi o ensaio geral de Calabar e você é a única pessoa que pode fazer o meu filme". No alvo: A Estrela Sobe não só seria um dos melhores filmes brasileiros do século 20, como proporcionou a Betty Faria um dos seus mais marcantes desempenhos na tela. Talento reconhecido: o papel rendeu à atriz o Troféu Air France de Melhor Atriz do Ano.

Todos os grandes êxitos da estrela que subiu

O cinema propiciou notáveis desempenhos a Betty Faria. Além de A Estrela Sobe, a atriz brilhou em Bye Bye Brasil (de Cacá Diegues, 1979), Anjos de Arrabalde (de Carlos Reichembach, 1986, Kikito de Melhor Atriz no Festival de Cinema de Gramado) e Romance da Empregada (de Bruno Barreto, 1988, Troféu Air France de Cinema, como Melhor Atriz).

Nas novelas de tevê, Betty Faria brilhou ainda em atuações notáveis como Pecado Capital (1976), Duas Vidas (1977), Tieta (de Aguinaldo Silva, 1990), De Corpo e Alma (1992), A Indomada (de Aguinaldo Silva, 1997), Salvador da Pátria (de Lauro César Muniz, 1998 ) e Suave Veneno (de Aguinaldo Silva, 1999), ufa de novo!, todas na Rede Globo. Na TV Bandeirantes, a atriz atuou em A Idade da Loba (de Alcione Araújo, 1995). Agora em 2005, de volta à Rede Globo, vive a sapequíssima trambiqueira Pimenta, em América, de Glória Peres.

... afinal uma mulher de negócios

Em 1985, após recusar o papel da Viúva Porcina no remake de Roque Santeiro, Betty Faria estreou como produtora em Jubiabá, de Nelson Pereira dos Santos. Nele atuou também como atriz, ao lado da filha Alexandra Marzo, que estreava no cinema. Mais recentemente, produziu e protagonizou o longa-metragem Bens Confiscados, de Carlos Reichembach, que deve estrear nos cinemas este ano.

Buda dá as caras e vem para ficar

Como se integrando todas as mulheres (a estrela da tevê, do cinema e do teatro; a produtora; a libertária, a protagonista de dois casamentos oficiais e muitos namoros não-oficiais; a mãe, a avó de Giulia, filha de Alexandra Marzo, e dos gêmeos Valentina e João Paulo, filhos de João), o budismo surgiu na vida de Betty Faria na hora e no momento certos. Sempre mística, a atriz flertou com o candomblé, a umbanda e outras religiões por muito tempo. Em 1986, em viagem a Los Angeles, entrou em contato com o budismo por meio de uma amiga do ator Dennis Hopper, com quem namorava à época.

Mas foi apenas em 1992 que o Budismo se fortaleceu em Betty Faria, o que a fez receber o Gohonzon (oratório budista), que mantém com especialíssimo carinho e devoção na grande sala do apartamento de cobertura onde mora, no bairro do Leblon, no Rio de Janeiro. Atualmente é membro da BSGI (Brazilian Soka Gakai International), organização budista que trabalha em prol da paz, da cultura e da educação ao redor do mundo.

Sobre o Budismo Betty Faria fala: "Tudo parte de nós mesmos: sorte, saúde, felicidade são o efeito de suas ações no passado, no presente e em encarnações passadas. Assim, divergimos inteiramente das religiões que atribuem poderes e responsabilidades a Orixás e Deuses e a nossa prática implica uma revolução interna, em um exame sincero de suas ações e na responsabilidade por seus atos, palavras e pensamentos. Profunda e difícil, a prática exige disciplina, estudo e atenção ao que se causa através de pensamentos, palavras e ações."

É isso aí, caro leitor. Quem quiser que conte outra.


*Rogério Menezes é jornalista e escritor. Autor do livro de crônicas A Solidão Vai Acabar Com Ela (Versal, 2003) e dos romances Meu Nome é Gal (Codecri, 1984) e Três Elefantes na Ópera (Record, 2001), atualmente escreve biografia-depoimento da atriz Betty Faria para a coleção Perfil/Aplauso da Imprensa Oficial de São Paulo.